
Fibromialgia é inflamação? É emocional? É nervo? Entenda o “crosstalk” por trás da dor
Fibromialgia é dor nociplástica: o sistema nervoso fica sensível e amplifica sinais. Entenda sintomas, diagnóstico e tratamento multimodal baseado em ciência.

Introdução
Fibromialgia não é exagero, nem “coisa da cabeça”, nem falta de força de vontade. É uma condição real e complexa, com impacto funcional relevante. O ponto-chave é este: nem sempre existe uma lesão única explicando a dor. Em muitos casos, o problema está no modo como o sistema nervoso processa e amplifica sinais (Ghavidel-Parsa & Bidari, 2023).
A ciência atual descreve a fibromialgia como um conjunto de mecanismos que interagem (“crosstalk”) — o que ajuda a explicar por que pacientes diferentes respondem de forma diferente ao mesmo tratamento (Ghavidel-Parsa & Bidari, 2023).
O que é fibromialgia?
Fibromialgia é uma síndrome de dor crônica caracterizada por dor difusa (generalizada) por mais de 3 meses, com sintomas associados como fadiga, sono não reparador, rigidez, queixas cognitivas (“névoa mental”) e sintomas de humor (D’Agnelli et al., 2019).
Do ponto de vista moderno, ela se encaixa principalmente no conceito de dor nociplástica: dor sustentada por alteração no processamento e modulação da dor, sem que uma lesão estrutural explique, sozinha, a magnitude do quadro (Ghavidel-Parsa & Bidari, 2023).
Por que isso causa dor?
1) Quando o “alarme” do sistema nervoso fica sensível demais
Uma forma simples (e correta) de entender fibromialgia é pensar em um sistema de alarme corporal calibrado para disparar alto e com facilidade. O resultado é hipersensibilidade e dor com estímulos que, em outras pessoas, seriam toleráveis. Esse raciocínio se conecta ao modelo de sensibilização central, mas hoje se reconhece que ele é apenas parte da história (Ghavidel-Parsa & Bidari, 2023).
2) Emoção e dor: não é “psicológico”, é neurobiologia
Um modelo integrativo recente propõe que um desequilíbrio entre um sistema de ameaça hiperativo e um sistema de soothing (apaziguamento) hipoativo pode manter a rede de saliência do cérebro em modo de alerta contínuo, contribuindo para amplificação da dor e para sintomas associados (Pinto et al., 2023).
Importante: os próprios autores apresentam isso como modelo hipotético. Serve para organizar o raciocínio e orientar abordagens, não para carimbar o paciente com rótulos (Pinto et al., 2023).
Tradução prática: estresse crônico, hipervigilância, sono ruim e dor podem formar um ciclo de retroalimentação — e isso é biológico, mensurável e tratável.
3) A periferia pode participar em subgrupos
Além do componente central, revisões discutem que alguns pacientes podem ter maior participação de mecanismos periféricos, como hipóteses de autoimunidade e alterações de fibras finas em subgrupos, o que reforça a ideia de heterogeneidade da condição (Ghavidel-Parsa & Bidari, 2023). Isso ajuda a entender por que “uma receita pronta” falha com tanta frequência.
4) Genética e epigenética: predisposição não é destino
Há evidências de contribuição genética e epigenética na suscetibilidade à fibromialgia, além de possíveis interações gene–ambiente como gatilhos (D’Agnelli et al., 2019). Isso não significa determinismo. Significa risco aumentado — e risco pode ser mitigado quando se trata o conjunto: sono, atividade física, saúde mental, comorbidades e modulação da dor.
Quando desconfiar: sintomas comuns
- Dor difusa (muitas vezes migratória) e hipersensibilidade ao toque
- Fadiga intensa
- Sono não reparador
- Dificuldade de concentração/memória
- Cefaleia, queixas intestinais, ansiedade/depressão podem coexistir (D’Agnelli et al., 2019)
Sinais de alerta que pedem investigação paralela
Febre, perda de peso inexplicada, dor noturna progressiva, déficits neurológicos focais, fraqueza progressiva importante, ou sinais objetivos persistentes de inflamação articular. Esses achados não “negam” fibromialgia — mas exigem que outras causas não sejam perdidas.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico é clínico, com avaliação estruturada e exclusão de diagnósticos diferenciais que mudariam o manejo. Até o momento, não existe um exame único “confirmatório” universalmente aceito para fibromialgia; a base é a avaliação clínica, critérios atuais e contexto do paciente (D’Agnelli et al., 2019).
Quais são as opções de tratamento? (abordagem multimodal)
Fibromialgia responde melhor a tratamento multimodal. Direto ao ponto: quem promete “cura rápida” geralmente está vendendo ilusão.
- Educação em dor: compreender dor nociplástica melhora adesão e reduz medo (Ghavidel-Parsa & Bidari, 2023).
- Exercício físico graduado: começa abaixo do limiar de piora e progride com regularidade.
- Sono: tratar insônia, higiene do sono, rastrear apneia quando aplicável.
- Saúde mental e regulação emocional: não para “convencer que não dói”, e sim para reduzir amplificação do sistema de ameaça e melhorar coping (Pinto et al., 2023).
- Medicações quando indicadas: escolhidas pelo perfil de sintomas e comorbidades, com metas funcionais claras e revisão periódica.
- Procedimentos intervencionistas: úteis quando há geradores de dor coexistentes (ex.: dor lombar mecânica, síndromes miofasciais, cefaleias específicas). Em fibromialgia isolada, raramente são “a solução”.
Mitos e verdades
“É só emocional.”
- Mito. Emoções modulam dor, mas isso não torna a dor imaginária (Pinto et al., 2023).
“Se não aparece em exame, não existe.”
- Mito. O diagnóstico é clínico e o sofrimento é real (D’Agnelli et al., 2019).
“Tem tratamento.”
- Verdade. O alvo realista é melhora funcional e qualidade de vida, com plano consistente e individualizado.
Quando procurar um especialista em dor
Procure avaliação especializada quando a dor é persistente (>3 meses), há perda funcional, múltiplas falhas terapêuticas, comorbidades importantes (sono/humor), ou quando o caso precisa de estratégia em vez de tentativas aleatórias.
Conclusão
Fibromialgia é dor real, frequentemente nociplástica, e pode envolver múltiplos mecanismos em interação. O tratamento efetivo é multimodal, individualizado e progressivo. O objetivo é concreto: menos sofrimento, mais função.
Bio do médico
Dr. José Osvaldo Barbosa Neto é médico anestesiologista e especialista em Medicina da Dor, com atuação em São Luís (MA). Atua no manejo de dor crônica complexa, com foco em abordagens intervencionistas guiadas por imagem e cuidado individualizado do paciente, no contexto do INEURON – Instituto do Cérebro e Coluna do Maranhão.
Aviso importante
As informações deste texto não substituem uma avaliação médica. Cada caso de dor crônica é único e deve ser analisado individualmente.
Referências (autor–data)
- Ghavidel-Parsa, B.; Bidari, A. The crosstalk of the pathophysiologic models in fibromyalgia. Clinical Rheumatology, 2023; 42:3177–3187.
- Pinto, A. M. et al. Emotion regulation and the salience network: a hypothetical integrative model of fibromyalgia. Nature Reviews Rheumatology, 2023; 19:44–60.
- D’Agnelli, S. et al. Fibromyalgia: Genetics and epigenetics insights may provide the basis for the development of diagnostic biomarkers. Molecular Pain, 2019; 15:1–12.





